para Cecília Meireles
o dia como o interior de uma fruta:
salpicado
de acidez e açúcar.
o dia como o interior de um navio:
sólido
sobre o azul aberto
e sombrio.
o dia como o interior de uma piscina:
sacudido
para os lados como o verde
das campinas.
o dia como o interior de um cavalo:
potente,
sem relincho
e sem estalos.
o dia como o interior de uma caverna:
isolado,
mas não a ponto de
não ver pernas.
o dia como o interior de uma caixa de anzol:
fisgado,
no lugar do peixe,
pelo brilho do sol.
o dia como o interior de um poema:
tinto e doce
para esquecermos
os problemas.
o dia como o seu interior é o que falta aqui:
nele só você sabe
o que vai ficar
e o que vai partir.
— Poema do livro Pequenos incêndios diários.