Arimateia Martins
“Escrever é transformar a lembrança conhecida em uma lembrança clandestina.”
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Textos

da arte da cólera

houve um tempo em que você era jovem,

quando não conhecia ainda a febre da cólera

e, por não conhecê-la, não quebrava tantas louças

como se quisesse jogar fora os cacos

dos espaços vazios que você já não tem.

para você,

o suicídio era martírio subestimável,

pouco inflamável

dentro da confiança

que fabrica um ser,

mesmo antes de visitar

o próprio destino — apenas porque aceitou,

no homem ao lado, um futuro maduro,

caudaloso, de grandes coincidências

entre o agora, o sempre, o nunca.

talvez naquela época

receasse admitir a dúvida,

porque sabia que tê-la

era, no mínimo, ato de coragem

e nem sempre prescindível,

já que amor não é protótipo confiável

para os que querem reluzir no sangue a vida,

mas para os que já reluzem na vida o sangue;

pois confia-se sempre com punhos à corda,

com unhas roídas, com dedos flamejantes

ou supostamente frios caso toquem

o turvo corpo no ápice da sua decisão

de não ter filhos, mas na de matar filhos,

inúteis espermatozoides frescos

na fresta, no ralo.

e, portanto, gastar com balas

o dinheiro do salmão e do remédio,

como a precisar mastigar a si mesmo

e acidar o próprio estômago,

tornou-se facilmente parte da sua amarga rotina

— como se o silêncio dos cômodos da casa,

antes servido em pires, estivesse a não dar

frutos mais adocicados, mais sadios.

então você,

com balas entre os dentes,

dava os frutos com haste, casca, polpa,

larva, sabor. depois recitava para os objetos

as suas convicções a respeito da vida, a respeito

dos dias em que lhe acendia na gruta do peito

uma viscosa revelação e sobre o fato de que tão cedo

você precisaria implorar à natureza o dobro

de amor que uma pessoa, na solidão de sua clareza,

normalmente precisa para se manter de pé, fervendo água,

cozinhando arroz, esperando a roupa ao sol no varal secar;

ou simplesmente sobre o fato de não precisar escrever,

em alguma de suas mensagens, a palavra amor,

já que isso seria recorrer à artimanha à qual recorrem

os poetas quando almejam ofuscar o fracasso

ao subornar a palavra em vez de aprendê-la,

de educá-la, de salvá-la da domesticidade

que é dar a palavra ao mundo com a dívida

do sinônimo, do antônimo,

do significado, e você pouco sabe

que sabe sofrer.

até que os anos

junto com os presentes de namoro

e com as cobranças pelo correio chegaram,

como o corte dá na carne a lembrança

do sangue, e em pouco tempo

a dúvida instalou-se ali na sua frente,

como animal de estimação.

árvores

envelheceram,

envelheceram

ônibus,

sapatos,

mesas,

cortinas,

laboratórios,

livros,

tubos de ensaio,

telescópios

e certificados

antigos

de idiomas.

a vida fez questão de não comprar

cada vez mais roupas; fez questão de festejar

seu aniversário em tom monótono,

com risos baixos no rádio, e você passou a andar

na direção das pessoas como um navio de carga,

barulhento, a ponto de eliminar de súbito

os lábios de quem questionasse a força de suas ondas,

os olhos de quem lançasse sobre você um olhar fixo,

cheio de corais; como se, no trabalho,

tanto fizesse tê-las inteiras ou não,

arrumando papéis, servindo cafés,

decorando mesas, como se melhor fosse

transbordar nas pessoas o seu imediato suicídio.

só que antes da destruição do corpo,

do baque na praia,

lembra que ontem você precisou olhar à janela

a pintura em movimento do horizonte

e, em vago limpar de nuvens,

a vida se refez dentro de si.

lembra que hoje, assim como em outros dias,

você precisou casar a fome com uma laranja

e meio mamão e beber café com leite

segurando a alça de uma xícara.

— Poema do livro Alva casa dos escuros.

Arimateia Martyns
Enviado por Arimateia Martyns em 13/05/2026
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