para Clarice Lispector
Tão parecida estava a tarde com a manhã que por um instante cinzento, cinzento como a cortina alta e espessa da janela, Geovane, após espalhar todos os seus brinquedos no chão do quarto, imaginou-se despertando.
Não despertando da realidade morta e estranha que é o sonho enquanto escuramente se dorme, mas do que é ainda mais profundo e inexplicável: da própria realidade em que estava insuportavelmente acordado — em que o ar fugidio na copa das árvores e a cor monótona das nuvens ao longe, ancoradas no azul do céu sem fim, assumiam a direção do seu olhar desapontado e esmaecido.
Até que Geovane, não conseguindo mais voltar para dentro de si, apreensivo e assustado — como todas as vezes fazia quando Elias, por exemplo, lhe contava de súbito um segredo, ou quando sentia estar conhecendo profundamente alguma coisa em cujo íntimo parecia se acomodar uma força violenta, quase incontrolável — sentiu o seu vago raciocínio sobre as coisas soltar-se da parte alta da cabeça e começar a desaparecer.
À medida que a consciência desaparecia, ou melhor, que um pensamento dava lugar a outro pensamento, a tarde era tomada por uma sensação peculiar e crescia branquíssima dentro do vácuo simétrico e da cegueira contemplável das coisas. O falso instante da vida de Geovane estava agora cedendo lugar ao instante legítimo da vida, enquanto um corpo de garoto permanecia, em mansidão, feio e verde no meio.
Na verdade quem o olhasse de longe teria a impressão de que ele estava pensando, e pensando em algo bastante complexo para um garoto que mal tinha começado a estudar ciência e matemática.
Mas não era esse o caso de sua mãe, que estava a pouquíssimos metros de distância e para quem Geovane, voltando o olhar e o corpo, de repente jogou (como se joga uma pedra no escuro) uma pergunta.
— Mamãe, por que o céu é azul e não verde?
(E o mais surpreendente: como se ela adivinhasse e agarrasse essa pedra.)
— Talvez porque Deus preferiu a cor azul em vez da verde — disse, afastando o guarda-roupa para limpar atrás.
— Azul é a cor preferida de Deus?
— Talvez... Quem sabe... Já que o mar também é azul.
— Ah, o mar também é azul! — Geovane sussurrou, levando o indicador à boca. — Deus é bonito ou feio, mamãe?
— Bonito — disse, pondo o guarda-roupa de volta no lugar. — Muito bonito.
— Quando é que eu posso ver Ele?
Mamãe olhou-o por um segundo, os movimentos lentos, meditando ainda mais longe; não respondeu.
— Queria ver Ele só um pouquinho — continuou, os olhos acesos, a boca satisfeita. — Deus parece ser tão bom...
No momento em que Geovane sentiu o seu vago raciocínio se desprender, também sentiu de modo claro, como o som intenso e vibrante do avião atravessando pesadamente o ar, o instante não só crescendo dentro de si, como dilatando seus nervos com uma habilidade de planta resistindo a uma forte tempestade de granizo.
E tudo isso — ao contrário do que ele antes pensava — não era sequer doloroso. Tudo isso dava ao ar um leve gosto adocicado de liberdade: como um cachorro que, ao passar a vida preso em um quintal escuro, é de repente solto na claridade vivíssima das ruas.
O mundo tinha a cada segundo um cheiro agradável de coisa nova, assim como a cada segundo ele avançava um pequeno espaço ao redor de si e descobria sensações que pareciam emergir de uma profundidade difícil de ser alcançada pelo consciente.
Isso só era possível porque a casa, ao contrário dos outros dias, encontrava-se silenciosa e a ausência da voz áspera de sua esposa havia sido rapidamente preenchida pelo mais inteiro e macio silêncio, fazendo com que Geovane pudesse se transformar, iluminado, no próprio pensamento e se percorrer, descamando as lembranças, muitas vezes numerosas e quase indescamáveis, dos momentos bons e ruins que passou ao lado de Alice, como se ele soubesse e respeitasse o ínfimo espaço que cada lembrança ocupava dentro do seu cérebro, para que assim uma não fosse engolida pelo lembrar-se da outra e ele não sentisse a cabeça pesando como se o inferno a puxasse impiedosamente para baixo.
Geovane, no entanto, sabia que, se Alice o olhasse agora com seu olhar mentalmente forte e penetrante, tudo nele se desmancharia feito pedra rolando ladeira abaixo.
Alice olhava-o como se adivinhasse, com precisão, todos os seus intervalos, inclusive os menos otimistas, quando ele, com a cabeça encostada numa das coxas dela, carecia, em silêncio, apenas de um beijo rápido, de seca umidade; ou mesmo, às vezes, quando apertava o peito contra o seu e então ela sentia seu coração, apressado, crescendo largo e gordo de sangue, depois, num movimento todo de alívio, reduzindo-se, apreensivo, à exaustão inaudível do último pulsar.
E essa recordação, embora ele tivesse passado dois meses sem confrontá-la fisicamente, bastante inequívoca permanecera em seus gestos, em suas impressões. Não havia um só dia em que o seu corpo não a sentisse e não se arrepiasse com o barulho das ondas desta, lançando-se de modo incessante contra as pedras lisas e calmas da sua consciência.
Foi quando, ao distrair-se, Geovane viu-se atravessado por um instante seco e, aborrecido, procurou obstinadamente esquecer. Mas nada se moveu dentro dele. A imagem de Alice continuava solidamente erguida como uma estátua no jardim. Uma estátua grande, pesada, dessas que seriam precisos muitos homens para arrastar, e arrastá-la apenas por alguns míseros centímetros, tão míseros que pouco se notaria o espaço de onde a moveram, apesar de se perceber ligeiramente o cansaço dos homens, suados, ofegantes, bebendo água.
Alice, com sua frieza, era um gelo duro de derreter.
— Anda, venha brincar na sala. Esta poeira não fará bem a você — disse mamãe, pegando-o por um dos bracinhos.
Geovane olhou-a por um momento, perplexo, contraindo os braços num gesto de recusa. Mas, como alguém que aceita de boa vontade um conselho, afrouxou os braços; deixou-se levar sem alvoroço.
Na sala, puxou o braço e sentou-se de súbito no chão. Isso fez o ar — inchado de sombras e de silêncios que se misturavam um pouco aguçados — alastrar-se ainda mais pelos cantos da sala, que, se antes possuía uma identidade calma, naquele minuto agigantou-se como um pequeno lago nervoso cujas espécies, inteiramente desconhecidas, ora submergiam, ora apareciam à superfície.
Era como se o futuro — por dó, é claro, e nunca por reconhecimento —, após vasculhar muitas gavetas com centenas de páginas em branco, decidisse bater à sua porta e fazer-lhe às pressas uma visita — ainda que Geovane, ao abrir a porta para o futuro e mirar os olhos, fundos e atônitos, na vasta escuridão que se estendia atrás do visitante por bem duas léguas, com direito a neblina, ventos fortes e calafrios, nada compreendesse daquela visita; e, portanto, não o convidasse para entrar, havendo apenas uma conversa de quatro ou cinco palavrinhas antes do “agora estou ocupado”.
E havia sido assim durante anos. A sua vida começava e terminava com reticências. Não era capaz de aprisionar por muito tempo uma alegria: sentia-a como coisa essencialmente livre, sem obrigações com as paredes suculentas e mastigáveis do seu ser. A sua cotidiana felicidade estava em aprisionar gatos ao custo de ração e água, em troca de miados próximos aos pés ou em cima do sofá, de meia satisfação.
Depois vinha a ida para o trabalho, o trânsito, a volta do trabalho, as notificações, os gatos com fome, os pratos e os talheres sujos, o corpo sujo, uma lembrança rápida, a espuma no banho, o sono e a espera pela dissipação do escuro frio da noite pelo começo morno e lúcido do dia seguinte, com ele já deitado na cama.
— Quantas vezes ontem eu morri? — ao acordar, perguntava-se; assim como passar horas sentado à mesa não repele a fome, e sim a excita ainda mais.
Até que toda a sua atenção voltou-se — os olhos dilatados, a cabeça agitada — para os passos da mãe, que se dirigia, séria, novamente ao quarto.
Em silêncio Geovane respirou. A sala, em contrapartida, reconheceu entre a mudez dos móveis e dos objetos o seu silêncio enorme, que possuía trincos como a porta.
No entanto, antes que a estranheza e o silêncio da sala envolvessem seu estômago, ele se levantou. E como se as coisas em um segundo se refizessem com uma nova expressão, olhou outra vez em volta. Parou os olhos na poltrona vermelha. Lembrou-se da ferida em carne viva de Letícia. Então, como se o sangue da ferida dela ainda escorresse diante dos seus olhos, sentiu uma onda de nojo sacudir-lhe o corpo, atravessando-o.
Só que desta vez não cuspiu. Aceitara o sangue como quem aceita, dentro do estômago, um pêssego maduro e um pedaço de carne cozida que, embora causassem nojo, precisavam por instinto ser engolidos e aceitos.
Desde o primeiro corte profundo, Geovane aprendera uma coisa chamada amor e, para fechar os cortes, precisava manter-se bem-humorado à mesa para comer.
A única vez em que o seu bom humor não adiantou foi quando Alice pela primeira vez o convidara para jantar em sua casa e tentara levá-lo naquela noite para o quarto — o que não apenas fez cambalear sua timidez, como o fez desaprender a levar, calmo, o garfo à boca e a despedir-se dela, à porta, inquieto, como se seus pés tivessem desaprendido a reconhecer a textura das pedras do caminho de casa e o ar a cada esquina fosse entrar mais frio em seus pulmões, congelando-os.
Enquanto brincava, Geovane percebeu que a sala aos poucos estava ficando escura; que a luz do sol tinha saído do chão para a parede e que, dela, estava desaparecendo.
Por um instante acreditou que Deus estivesse brincando de esconder o sol entre as nuvens, como ocorre na hora em que o céu está nublado e Deus precisa fazer chover.
Mas, de pé, olhando pela janela, ele percebeu que era a tarde que estava indo embora para dar lugar ao escuro chamado noite, o que sempre lhe dava um leve receio, devido ao risco de ver, na manhã seguinte, a caminho da escola, alguma planta esmagada no chão de alguma esquina, simplesmente porque alguém não a notou na penumbra do canteiro.
Afinal, quem é que teria coragem de parar e olhar para trás por ter sentido esmagar, na pressa dos passos, um fio de capim, um caule de planta? O melhor era continuar caminhando como se não houvesse dentro de si nenhum vínculo com a morte — muito menos com a morte inútil de uma planta.
Como Geovane, ninguém conhecia tão bem o gosto, intenso e límpido, da consciência revirando-se feito um músculo com cãibras. Tanto que, antes de a mãe chamá-lo para o banho e de a noite se fundir com a tarde, ele mesmo despertou seu corpo para o banho, o jantar e o sono que, passado todo esse esforço, viria logo depois.
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Sinopse: Numa determinada tarde da vida de Geovane, seu corpo é tomado por uma sensação estranha — nunca antes experimentada — que começa a crescer enquanto ele brinca com seus brinquedos no quarto, bem ao lado da mãe, até revelar-se numa pergunta simples e direta: “Mamãe, por que o céu é azul e não verde?”. A partir dessa pergunta, uma série de sensações e questionamentos começa a ganhar força em seu interior. Isso faz com que, durante o desenrolar da trama, Geovane menino e Geovane adulto se confundam — distanciando-se em acontecimentos característicos de cada um e encontrando-se em emoções comuns a ambos.
Revisão: Francisco Rogiellyson Andrade e Arimateia Martins.