para Franz Kafka
Era uma manhã de domingo quando Franz entrou no escritório com a cara e os olhos de segunda. A barba feita e o cabelo bem cortado davam à sua aparência um ar extremamente cuidadoso e eficiente, além do terno e do sapato social, que lhe realçavam ainda mais certa persistência em manter a formalidade.
No entanto, entre um e outro movimento calmo seu, alguma fagulha de pessimismo e de vulnerabilidade ligeiramente se notava — em especial quando fechou a porta do escritório devagar e aprumou o corpo em direção à mesa adjacente ao sol da janela e oposta à meia-luz da entrada, como se adivinhasse, na quietude do ambiente, a recusa para a vaga de emprego e tentasse ao máximo evitar esse destino nocivo e injusto.
Talvez porque o nervosismo, àquela altura, já tivesse ocupado todo o seu estômago e agora ele o sentia embrulhado, como se as bolachas comidas de manhã se revirassem, misturadas à xícara de café, que tomara às pressas, antes de deixar a casa com os filhos e a esposa prolongando o sono. Já que a empresa localizava-se longe — quase do outro lado da cidade —, nenhuma outra opção lhe foi dada, após o alarme tocar, senão a de estar na parada minutos antes e pegar o ônibus no horário certo.
Franz estava desempregado havia três meses, e o dinheiro que ganhava com o trabalho avulso de pintor e com as vendas dos quadros já não servia de sustento nem para os filhos, que ficavam maiores, nem para a esposa, que tinha ameaçado deixá-lo e voltar com as crianças para a casa espaçosa da mãe. E quem sabe, de todas as preocupações, fosse essa repentina ameaça que agora tomava conta dos seus pés e o fazia avançar cuidadosamente.
Apesar de não ser a primeira vez que a esposa se precipitava em recorrer a isso, desta vez a ameaça parecia ecoar em seus ouvidos com a raiz firme da decisão concisa e imutável. Ela própria naquele instante tomou para si uma expressão mentalmente cerrada, com lábios duros, sobrancelhas baixas e olhos fixos — o que a deixava livre de qualquer definição e com o rosto pronto para a sensação do próximo pensamento, pois sabia que a primeira palavra a ser dita, depois do grande bloco de silêncio erguido entre eles, seria o seu nome simples e velho, espremido das entranhas dele e dos escombros fossilizados pela história.
O fato era que ela também, durante toda a sua vida, ainda que de modo inconsciente, não tinha se preparado para outra coisa senão para isso: despedir-se algum dia da dor que é amar um homem mais do que a si. E em nenhum momento considerara recuperar tais lembranças e mantê-lo vivo, de coração batendo, ao fácil alcance de seu corpo. Queria-o longe, como as tempestades mais fortes e irremediáveis — como se, a cada instante contado, a sua existência não precisasse mais justificar a existência dele, e só a ela coubesse saber, na consciência de tempo e de espaço, da nova onda enérgica de amor.
Em resposta àquilo que Franz temia e à força que ele ostentava, ela havia se transformado numa potência.
O gerente nada comentou na hora. Para ele, perguntar ao rapaz se estava nervoso podia deixá-lo ainda mais nervoso e acabar transformando toda aquela ordem em completa desordem. Em vez disso observou apenas o sujeito em seu breve percurso mortal até a mesa comprida, de vidro espesso, meio escura, onde o gerente, junto a centenas de documentos e dezenas de currículos, estava sentado na sua cadeira, com o olhar sério e uma caneta na mão.
Franz parou diante da mesa e pôs calmamente as mãos sobre as costas magras da cadeira, enquanto arrastava os olhos pelo quadro médio, de moldura dourada, bem atrás do gerente na parede. O quadro retratava uma senhora nua, de cabelos longos, com um saco transparente cobrindo a sua cabeça, sentada ao lado do filho e do marido, que aparentemente estavam normais. Mas o significado da obra fez o gerente ficar confuso por um instante sobre a sua exposição naquela parede: se o rapaz ficara desse modo hesitante por conta do quadro, evitando que na cadeira se sentasse, ou porque simplesmente aguardava, educado, o convite para se sentar.
O gerente, porém, continuou sem nada dizer. Somente remexeu alguns papéis sobre a mesa, com a intenção de que o rapaz desconstruísse aquela postura tão formal e se sentasse na cadeira, até mesmo sem pedir qualquer tipo de licença.
Pronunciou ainda algumas sílabas do seu nome. Quando disse em voz alta o nome completo, fez um rápido elogio; disse-lhe que era um nome bonito e que tinha uma elegância de fora, meio estrangeira. Mas, percebendo que nada disso adiantava, o gerente pediu ao infeliz que se sentasse.
Só que Franz, porque não lembrara antes ou porque fora de repente chamado, disse que precisava ir ao banheiro com urgência.
No mesmo instante o gerente levantou-se e, inclinando o corpo levemente sobre a mesa, apontou, através da persiana e da vidraça, a portinha no final do escritório.
Para ganhar tempo, o gerente aproveitou a ausência do sujeito para beber um pouco de água e esticar as pernas, antes que ficassem dormentes. Há anos esse despretensioso hábito tinha se tornado seu amparo, porque o entusiasmo de vir a ser o dono da empresa, desde o início da sua gestão, não passava de beber água e esticar as pernas entre um intervalo e outro, e isso havia dado lugar ao desânimo, obrigando-o a contentar-se apenas com o gostinho da ideia de ter as mesmas mordomias que o dono da empresa e a aceitar a sua vida miserável de empregado com ordens a cumprir e com relatórios para entregar; sem contar a falta de dinheiro quase assídua, que também o irritava pelo simples fato de impedi-lo de sair mais vezes por mês com garotas de programa.
Mesmo casado e obcecado pela esposa, desde cedo ele compreendeu que o seu corpo, assim como o de outros homens, continuaria escravo da vontade perturbadora de fazer sexo com outras mulheres mais jovens e de fácil acesso. Algo que, com o passar dos anos, tornou-se cada vez mais constante e intenso, a ponto de ele aprender a encaixar na sua rotina o momento das saídas com as garotas, sem levantar suspeitas.
Mas não era no amor que o homem encontrava conforto?
A própria mulher parecia não pensar que tal coisa pudesse acontecer. Ela, feliz, com a boca suculenta de saliva, como se nunca tivesse engolido nada a seco, parecia sentir-se sempre grata ao marido pela personalidade que ele lhe foi dando aos poucos, para que ela tivesse algo do qual pudesse se orgulhar e se esquecesse da mulher sem sal que um dia conheceu na repartição do escritório, tomando sozinha, com as mãos e com os olhos, meia xícara de café.
Sem perceber, ao se sentar de novo na cadeira, o gerente sentiu o coração começar a bater mais pesado, como as rodas de um jipe na subida de um morro. Seu sangue começou a correr mais espesso pelas veias inchadas, à mostra. Seu raciocínio ficou mudo como quem deixa pela metade uma ideia genial ou acorda de sonhos intranquilos. A boca esperava, medíocre, pensativa... — O que dizer? — E o nariz continuava esquisito, como fogueira acesa em dia ensolarado, enquanto seus olhos eram parcialmente tomados pela umidade.
Até que, com o rosto sensível à luz, sentiu de súbito algo afetar o movimento da sua respiração: eram o egoísmo de ser infiel à esposa e a falta de atenção aos filhos que lhe pesavam no peito como pedras. Mas, para que não o vissem em um de seus momentos de culpa, depressa respirou fundo, sacudiu o rosto e acomodou-se na lembrança velha e estável, coberta de bons filhos e de beijos enviados de longe.
Mal se acomodara, um barulho no trinco da porta o interrompeu: era o rapaz que retornava.
Franz entrou com as mãos molhadas, abanando-as para lá e para cá, depois chacoalhando-as; até que, ao se sentar na cadeira, esfregou as mãos na lateral escura da calça.
— No banheiro, não tinha papel? — espantou-se o gerente.
— Tinha, sim! — Franz respondeu.
— E não quis usar?
— Não, não gosto de papel.
— Sério?! — o gerente estranhou ainda mais. — Por quê?
— Sei lá... Prefiro uma toalha ou qualquer outro pano. Acho melhor...
— Bem, enfim! — interrompeu o gerente, procurando certo ânimo e conforto na cadeira. — Olhando o seu currículo, vi que você não tem experiência, ainda não concluiu os estudos, não tem nenhuma especialização em cursos técnicos e que gosta de pintura.
— Geralmente eu pinto nas horas livres — Franz acrescentou, como se isso, para a empresa, fosse algo relevante.
— Se você tivesse que dar uma nota de zero a dez que expressasse o valor exato da importância da pintura na sua vida, qual nota daria?
— Ah, sem dúvida, nove.
O gerente no mesmo instante comprovou que diante dele estava um jovem domesticado pelas maluquices dos sonhos que, quando não deixam o homem triste por serem impossíveis, deixam-no completamente no mundo da lua, achando possuir dom superior para cumpri-los virtuosamente. Então, lembrando-se do quanto fora difícil chegar à posição que ocupava na empresa, dispensou o rapaz e deu a vaga a outro.
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Sinopse: Franz é um jovem pintor que, em meio a uma crise financeira, se submete a uma entrevista de emprego para um cargo qualquer, depois de ter sido surpreendido pela esposa com a terrível ameaça de que ela o deixaria, levando consigo os filhos — que são os bens mais preciosos de Franz. Para evitar que isso aconteça, ele precisa conseguir um trabalho com renda fixa, capaz de garantir a higiene e a alimentação diárias dos filhos, dele e da esposa — algo que as vendas avulsas de seus quadros já não conseguem proporcionar.
Revisão: Francisco Rogiellyson Andrade e Arimateia Martins.